Dan Brown e o ritmo frenético

Dan Brown e o ritmo frenético


   A literatura acompanha o ritmo da sociedade, e é percepção geral, principalmente dos mais velhos, de que tudo é mais rápido hoje em dia, de que o tempo disponível não é suficiente para se o necessário. A evolução tecnológica endossa essa percepção porque ela gera mudanças exponenciais que a maioria da população não consegue acompanhar. A literatura também entrou nesse ritmo frenético. E o exemplo mais evidente dessa fase são os livros de Dan Brown, que, invariavelmente, obedecem à seguinte fórmula:

   BasicameO Símbolo Perdidonte são capítulos curtos  em que as histórias de vários personagens percorrem o livro de forma paralela e simultânea, ora se cruzando para formar clímax e anticlímax alternadamente. As explicações e desafios ficam entremeados pelas ações naquele tempinho para respirar.

   O gráfico abaixo ilustra como se dá a composição de O Símbolo Perdido. Os primeiros capítulos determinam as personagens principais, ao mesmo tempo que apresentam os secundários que vão ganhar seus próprios capítulos mais adiante, isso ajudará a gerar suspense para aquilo que está acontecendo com os protagonistas. Não raro, um capítulo é dividido em duas ações diferentes.

O Símbolo Perdido

   Não existe nada de novo nessa técnica, outros autores já a usam há algum tempo, como o André Vianco, mas os livros de Dan Brown são o exemplo mais bem acabado dela.

   Eu mesmo estou usando algo parecido no livro que estou escrevendo (sem a pretensão de ser um best-seller, mesmo porque o sucesso desse autor não se explica apenas por essa fórmula estrutural). Em Mateus e o mundo dos games, dois núcleos se alternam na história narrada, entretanto, isso não é usado gratuitamente, ou mesmo para entrar na moda, foi quase uma solução para o problema de o meu personagem viver duas jornadas: uma na vida real, outra na imaginação.

   Concluindo, o ritmo frenético agrada a um público maior, porém, como toda corrida, uma hora cansa.

Escrito por Escritor D. às 14h59
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Epílogo do livro Reparação

       Epílogo do livro Reparação

   Exercício dos tempos de faculdade sobre final alternativo do livro de Ian MacEwan. Quem tiver a possibilidade de lê-lo, não se arrependerá. Figurou na lista Bravo dos 100 melhores livros da Literatura Mundial.



   
A morte não separa, une. Ela é o ponto culminante de uma vida trágica. Mas, para duas almas que se amam, pode ser o início da realização do amor.

   Eu poderia ter feito um final feliz para Robbie e Cecília, poderia tê-los feito andar de mãos dadas pela praia, consumindo o desejo contido depois da guerra. Assim satisfaria os leitores que esperaram páginas e páginas para ver os dois amantes juntos. Dessa forma, não ficariam com aquele gosto amargo de um desfecho triste, aquela dor de coração oprimido, aqueles dias seguintes pensativos, ainda comovidos pelo amor não realizado. Mas este final ainda seria típico dos contos de fadas de meus tempos de criança. Estou velha, e ando amarga por esses dias, mas ainda me comprometo com a verdade. Esta deve se rebelar contra o poder do romancista, que, a todo momento, tenta manipular tudo a sua volta, às vezes, na tentativa de entender a verdade, às vezes, com o objetivo claro de subvertê-la. Mas ainda tenho um coração, embora a memória esteja com seus dias contados. Ainda devo um bom final aos dois.

   Então, em meus devaneios de autora, minha mão escreve sobre a morte de Robbie em Dunquerque, no último dia de retirada, e sobre a inundação do túnel do metrô de Londres, enquanto as enfermeiras, entre elas minha irmã Cecília, se protegiam do bombardeio. Os dois amantes não se encontraram mais em vida, suas cartas foram o único contato que tiveram nos últimos anos, mas foram essas que permitiram que uma chama se mantivesse acesa.

   Foi a luz da esperança que os uniu, quando os corpos, mesmo vivos, estavam distantes; depois, já mortos, deixaram livres as almas nas esferas celestes. O espaço da separação dos dois durou apenas o tempo de se lembrarem que se amavam.

 


 

Reparação  Reparação

  Ian MacEwan

  Tradução: Paulo Henriques Britto

  Editora: Companhia das Letras

  Preço: R$ 56,50

 

 

Escrito por Escritor D. às 12h49
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Aqueles que vão e os que ficam

A praça

   Quando amanhece, a solidão cede espaço, e a área se enche de pessoas apressadas e desatentas, pois não são capazes de descrever o esplendor daquelas árvores gigantes e seculares, da igreja de grandes torres afuniladas que brigam com prédios novos pela atenção do céu. Os veículos gritam tão vorazmente que engolem os sons naturais daquele lugar. Os pássaros, se ainda cantam, são ignorados; os monumentos só despertam o interesse dos vândalos que os veem como outdoor de suas marcas pessoais. Mas ainda há vida nessa praça, embora ela durma ao relento da noite.

Aqueles que vão e os que ficam

   O trem estacou na noite fria. Homens e mulheres descem apressados da estação. Um velho de barba suja caminha sem pressa pela rua, observando o movimento sem curiosidade. As pessoas desviam rapidamente de sua presença, agora imóvel, não olham em seu rosto; ele também prefere não olhá-las, pois não querem ser observadas. Acostumou-se a ser ignorado, mesmo quando não está pedindo nada. Porém, um rapaz que vem ligeiro, fita-o por poucos segundos, desvia rápido ante o enfrentamento recebido. O velho estava acostumado também com este gesto, tanto quanto o de desprezo e indiferença. Era aquela compaixão insuficiente para promover um ato de bondade, insuficiente para tirar alguém do caminho de volta para sua casa quente e confortável.

   A rua torna-se quase deserta. Os pulsos cruzados às costas, o vento que corta sua face e atravessa a blusa de lã puída e esburacada, seus cabelos ficam mais desarrumados, mas não se encolhe, continua caminhando, sem pressa.

Categoria: Papéis Avulsos

Escrito por Escritor D. às 12h26
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O estouro da boiada

   Vai ser dado o estouro da boiada. A porta se abre, o gado de trás entra apressado, empurrando os da frente.  As vacas mugem reclamando; os bois forçam a corrida.

   É impossível, mas o gado quer sentar, não dá, não há espaço pra todos, mas todos querem entrar.

   Eles não admitem a verdade: são gado, mas pensam que são humanos! Fingem uma falsa educação que rebenta junto ao estouro da boiada. Num aperto, alguns bois e vacas mugem, discussão que vai perder sentido no primeiro coice.

   Os que ainda acreditam ser humanos tentam apelar para a boa educação, sem sucesso, há sempre àqueles que os lembrarão de que são bois.

   “Tá incomodado, vai de táxi. É empurrando que todos entram. E não adianta reclamar, senão leva coice.”

   Às vezes até se redimem.

   “Ei, esta vaca está grávida.” 

   “Dêem o lugar para o bezerro e sua mãe se assentarem.”

   “Este banco é reservado para boi velho.”

   Um boi gordo-grande entra empurrando e mugindo, reclamando do boi magro que tentou se segurar para não cair.

   “Você fica se segurando, nem entra nem deixa os outros entrar”

   Argumento frágil, os dois tinham entrado! O boi magro ainda responde, coitado:

   “Não sou boi pra ser empurrado!”

   O gordo-grande continuou mugindo-reclamando. O magro, percebendo que não poderia argumentar diante de um coice tão poderoso quanto o dele, deixou-o mugindo sozinho. “Quando um não quer, dois bois não se coiceiam”.

   Quem é gado, pensa como gado, age como gado. O problema está sempre no outro boi, e não no transporte que os conduz, embora alguns animais pudessem deixar, às vezes, de se comportarem como tais e fazer desses momentos um pouco mais humanos.

 

Categoria: Papéis Avulsos

Escrito por Escritor D. às 18h25
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A última história

 

  

   Acordo tarde mais uma vez. É quase meio-dia. Ainda não sei direito se vou almoçar ou tomar café da manhã daqui a pouco, embora, invariavelmente, eu considere os dois.

   Eu passo pelo laptop em cima da mesa, tento não olhá-lo para não me lembrar de que ainda não escrevi nada. Há dias... não, há semanas não surge nada naquela tela. É como se as palavras tivessem desaparecido da minha vida.

   Com uma xícara na mão, optei pelo café da manhã, vou para a janela ver como está o dia. De lá verei meu amplo jardim e meu fiel jardineiro cuidando atenciosamente das flores e das árvores, especialmente de uma rosa que ele tenta florescer há meses. Aquele pedaço de chão é egoísta demais, outros homens mais experientes tentaram em vão cultivar a terra. Quando abro as cortinas, assusto-me com a presença dele, pregado à vidraça com um largo sorriso. Não posso ouvir, mas sei que diz “nasceu, nasceu”. Fico tão surpreendido e comovido com a notícia como há muito tempo não me sentia. Ergo a xícara em brinde. Porém, logo esta emoção cede lugar à estarrecedora verdade: não escrevo porque não acredito em mais nada. Que rosa nascerá nas minhas folhas brancas se não acredito que elas possam nascer?

   Assim eu quereria minha última história: um jardineiro que faz brotar flores da sua fé.



* Exercício da Faculdade sobre: A última crônica  de Fernando Sabino, obviamente, infinitamente superior a esta aqui.

 

Categoria: Papéis Avulsos

Escrito por Escritor D. às 12h14
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Meus livros no Bookess

 

Cinderelo Pé de Chinelo

“Era uma vez uma história que não está nos contos de fada, porque não pertence ao passado e não está na imaginação fértil das crianças. É uma história sobre um menino: Cinderelo Pé de Chinelo. Cinderelo, por parte de uma mãe desconhecida, e pé de chinelo, por parte da zoeira dos amigos. Mas todos o chamavam de Lelo.”

Plutão quer ser grande

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O pai dos burros

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As pessoas mais importantes do mundo que nunca viveram

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